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Lendas e Tradições
Vítor Bezerra |

Lendas e Tradições - A Origem da Alcunha "Tripeiro"

A origem do epíteto de “tripeiro”

 

 

Existem várias versões para a origem da alcunha de “tripeiro” para uma pessoa natural do Porto. Uma delas está relacionada com o intenso envolvimento da cidade na preparação da expedição que resultou na conquista da cidade de Ceuta, no princípio do século XV e que deu início à Epopeia dos Descobrimentos Portugueses.

Uma imagem com pintura, antigo, mesa, autocarro

Descrição gerada automaticamente

 

No ano de 1414, o então Rei D. João I, decide organizar secretamente uma expedição a Ceuta, com o objetivo de conquistar a cidade norte-africana. Para tal, precisava de uma armada robusta, a qual incumbiu os seus dois filhos de organizar. O Infante D. Henrique deveria arquitectar as embarcações a norte, no rio Douro, e o Infante D. Pedro, a sul, no rio Tejo.

O rei D. João I sabia que poderia contar com a ajuda do Porto, com o qual mantinha, desde há muitos anos, uma relação muito especial. Também o Infante D. Henrique, nascido no Porto, era uma pessoa muito querida para os seus conterrâneos tendo a sua chegada sido motivo de celebração por toda a população. Apesar de desconhecida a finalidade do elevado número de embarcações que se iam construindo, todo o Porto se entregou frevorosamente ao projecto, que absorveu uma parte significativa da atividade da cidade durante meses. Enquanto muitos se esforçavam na construção das embarcações, nos estaleiros junto ao Douro, outros preparavam as provisões para uma abundosa frota. Assim, deram grande parte do que tinham, nomeadamente a carne, que depois de limpa e salgada, foi armazenada nos navios.

Uma imagem com texto, livro

Descrição gerada automaticamente

 

A armada, composta por dezenas de navios, zarpou do Porto no dia 10 de Junho de 1415, levando a bordo muitos portuenses. Poucos dias depois, deu-se a reunião com a frota organizada a sul, pelo Infante D. Pedro e cerca de um mês depois, o propósito da expedição foi conseguido com êxito, dando-se assim a conquista de Ceuta.

Ao provisionarem a frota com a carne que possuíam, os habitantes do Porto ficaram apenas com as miudezas, nomeadamente as “tripas”, e viram-se então obrigados a inventar alternativas para se alimentarem. Surgiu assim o prato das “tripas à moda do Porto” que acabou por se tornar num dos mais conhecidos pratos portugueses e também num dos elementos mais característicos da cidade do Porto. Assim, com ele, nasceu também a alcunha de “tripeiros” para as pessoas naturais da cidade do Porto, que a aceitaram com honra e orgulho.

Uma imagem com alimentação, prato, tigela, mesa

Descrição gerada automaticamente

No ano de 1960, foi erguido junto aos antigos estaleiros do Ouro, no Largo António Calem, um monumento em bronze, de autoria de Lagoa Henriques, como agradecimento aos portuenses que construíram, aparelharam e aprovisionaram uma armada para a conquista de Ceuta, a pedido do Infante D.Henrique. Nesta escultura, entre duas figuras humanas, está representada uma peça de carne esventrada, lembrando que na cidade só restaram as tripas. Na inscrição pode ler-se: «FROTA DO INFANTE/CEUTA 1415/À GREI (Ao povo) que lhe deu Navios Provisões e nela embarcou. Porto 1960”.